quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Cinema: A propósito de uma "Diva"


À minha "mesa" também vêm frequentemente alguns filmes, ou não fosse eu também um  cinéfilo (embora nem sempre assumido). Fui ver este "Florence, Uma Diva Fora de Tom", sem maiores expectativas do que passar uns momentos divertidos com uma comédia inócua e sem grandes pretensões. Apesar, e este apesar deveria ter sido suficientemente ponderado, deste filme ter a assinatura de Stephen Frears e de contar com a interpretação de Meryl Steep, na minha modesta opinião, só a maior actiz viva, ponto. Como contraponto, percebi que também tinha o Hugh Grant que logo imaginei vir fazer o papel de Hugh Grant que ele faz em todos os filmes em que o tinha visto.

Saiu-me a coisa um pouco ao contrário. Nem o filme era inócuo, nem a comédia inconsequente e até, vejam lá, o Hugh Grant afinal mostrou ser um actor com nunca imaginei. Ele foi a grande surpresa do filme! Estamos em presença de uma comédia trágica, profundamente humana, na forma como apresenta as três personagens principais e as relações que estabelecem entre si: a diva amadora, o marido complacente e o pianista ingénuo. Interessante é que  o filme apresenta vários níveis de leitura capazes de agarrar tanto aqueles que se ficam pela piada fácil dos gritos histriónicos de Meryl Streep como aqueles que ficam tocados pelo drama humano que a sua personagem carrega. Durante grande parte do filme, convenci-me que esta tinha forçado na nota e roçado o burlesco. Mas nos créditos finais ficámos a ouvir trechos das gravações originais de Florence e percebi  mais uma vez que a actriz se transcendeu e absorveu completamente a figura retratada. Também pelo magnífico trabalho dos actores, o filme vale a pena.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Irlanda: 4 - Cerveja, uma Paixão Nacional


Nas duas semanas que passei entre os irlandeses quase dava para fazer um curso acelerado de introdução à cerveja. Por todo o lado, desde o pub mais modesto perdido numa aldeia do interior ao bar mais extravagante do hotel de luxo, a oferta de cervejas é tão grande e tão diversificada que o amador curioso depressa fica perdido entre estilos, processos de fabrico e marcas. É claro que a Guinness é universal e tem uma presença avassaladora por toda a Irlanda, aliás como eu já esperava. O que eu não sabia era da quantidade impressionante de marcas de cerveja, do orgulho de cada condado ou mesmo cada cidade na sua própria cerveja e nas suas brewers. Este foi um truque que aprendi depressa: se queres ver uma empregada de bar bem disposta e com um sorriso aberto (Ok, também não é preciso muito!) é encetar este diálogo logo de entrada. E o que vai beber? Cerveja, por favor? Qual a marca? Gostaria de experimentar uma cerveja local. Temos quatro! Bom a minha mulher gosta mais de cerveja tipo lager mas eu gostaria de provar uma ale. O que me aconselha? E a menina lá dirá da sua justiça e não terminará a refeição sem nos vir perguntar se afinal gostámos. Gostámos pois! São impressionantes os line ups como o da foto em que o cliente tem à sua disposição uma dúzia de cervejas de pressão, sem falar já da oferta disponível em garrafa.

Na Irlanda a cerveja é consumida uniformemente por pessoas de todas idades (desde que tenham idade legal, claro), condição social ou sexo. Um irlandês nunca bebe uma só caneca de cerveja. Quando vem a primeira pint é só o começo de uma longa jornada que só termina quando soa a sineta e se fizerem os últimos pedidos ao atingir a hora a partir da qual não se pode encomendar mais. A cerveja, quase sempre uma pint (corresponde à nossa caneca), é bebida antes de refeição como aperitivo, durante a refeição e depois do jantar, como se fosse um digestivo. Cada pint demora um certo tempo a ser bebida já que ali ninguém bebe de penalti. A cerveja é para se ir apreciando. Segundo nos explicou um consumidor que tinha cara de ser entendido no assunto, o truque é pedir a próxima antes de finalizar a pint que se está a beber. Isto porque no caso da pint da Guinness, há todo um ritual a respeitar. Primeiro não se pode ter pressa. O homem tira a cerveja e enche o copo até 3/4. E depois pousa-a no balcão e vai à vida dele ou começa a atender outros clientes. Nas primeiras vezes cheguei a pensar que ele se tinha esquecido de nós mas depois percebi. A Guinness precisa de assentar e isso demora uns bons minutos. Quando finalmente o barmen entende que a coisa está pronta, regressa e acaba então de encher o copo de forma que a camada superficial da espuma densa ocupe um décimo do tamanho do copo. Só então entrega a pint ao cliente ansioso.






Nestas condições, achámos que nenhuma visita à Irlanda estaria completa sem visitar a sede da Guinness, em Dublin. Pensámos nós e os outros milhares de turistas que tiveram a mesma ideia, ou não fosse a Guinnesse Storehouse a maior atracção da cidade. Mas o facto é que a visita valeu a pena e foi muito instrutiva além de imensamente divertida, apesar dos 20€ que custou cada entrada. As instalações fabris ocupam uma vasta area em St.James Gate mas a parte da exposição aberta ao público é verdadeiramente espectacular. Imaginem  uma estrutura com o formato de uma imensa mezzanine de vidro e ferro com seis (6) andares a imitar a maior pint do mundo. À entrada, passamos por uma sala de exposição onde se explicam, se vêem, se cheiram e tocam os quatro ingredientes que entram no processo da cerveja: cevada, lúpulo, fermento e água. No andar seguinte, o próprio Sir Arthur Guiness (ou a imagem dele interpretada por um actor) conta-nos a história da marca que começou de forma modesta em meados do seculo XVIII quando o senhor resolveu arrendar as instalações desocupadas através de um contrato de 9000 anos (não é engano!) pela fabulosa quantia de 45 libras anuais. E aí começou a fazer uma cerveja preta, fruto da torrefacção da cevada a altas temperaturas. No 3º andar, vemos a simulação do fabrico propriamente dito, enquanto nos andares seguintes vemos o desenvolvimento histórico da marca: desde o antigo trabalho dos tanoeiros, aos sistemas de transporte para acabar numa exposição interactiva sobre aquilo que tornou a marca conhecida e presente em mais de 120 países: a comunicação e a publicidade. Os dois andares de topo são ocupados por dois restaurantes e vários bares onde finalmente podemos usar o voucher com direito à nossa pint. O Gravity Bar no terraço, totalmente envidraçado, proporciona uma vista magnifica sobre toda a cidade o que seria uma optima maneira de terminar a visita não fosse a obrigação de passar à saída pela loja e ter que resistir à vasta parafernália de objectos com que o agressivo merchandising da marca nos tenta.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Irlanda: 3 - Dublin


Visitar Dublin neste principio de Agosto reconciliou-me com... Lisboa! É verdade! Para quem se mostra impaciente e vocifera contra obras e contra aquilo que considera turistas em excesso,  deveria vir a Dublin. A cidade está um autêntico estaleiro, todo o centro histórico com ruas inteiras rasgadas ao meio, deixando uma estreita faixa para circulação onde dezenas ou centenas de autocarros turísticos (para além dos automóveis e táxis) fazem autênticos malabarismos dignos de circo. Imagine-se, assim de repente, toda a baixa lisboeta esventrada e condicionada e pode ter-se uma ideia da dimensão da coisa. Salvam-se as poucas ruas sem circulação automóvel e que são um oásis no meio do barulho e do pó.  A razão de ser destas obras é a extensão da rede do metro de superfície, ao que dizem absolutamente necessária para uma das poucas capitais europeias que não dispõe de um metro subterrâneo. Seja!

Passado o desabafo, o que posso dizer sobre Dublin, onde passei quatro dias bem preenchidos? Não é uma cidade-museu que impressione pelo conjunto da sua beleza arquitectónica mas a verdade é que dispõe de um número muito apreciável de atracções, posicionadas relativamente perto entre si o que torna agradável e proveitosa uma visita de alguns dias. É sobretudo uma cidade com muita vida, vibrante, animada e fácil de percorrer. É fácil orientar-nos nela, tendo como referência o rio Liffey que divide Dublin ao meio com muitas pontes, algumas só pedonais, a unirem a duas margens. A parte nova da cidade, a mais comercial e com a maior parte dos hotéis fica no lado norte, sendo que os pontos turísticos mais visitados estão na margem sul.

Entre eles está inevitavelmente o Trinity College e a exposição do Book of Kells que atraem dezenas milhares de vistantes por dia. Uma romaria! Estamos a falar de um grande campus universitário, à boa maneira das universidades anglo-saxonicas, que juntam no mesmo espaço as várias faculdades, bibliotecas, serviços de apoio, residencias para estudantes e professores, capela, etc. No Trinity, fundado no final do século XVI, as visitas guiadas (exteriores) são feitas por estudantes-guias (que assim conseguem amealhar mais um cobres para custear o pesado encargo das propinas: em média 14.000€/ano!) vestidos com uma ridícula capa e que dão uma perspectiva muito pessoal do que é frequentar ali a universidade ao mesmo tempo que nos enchem de histórias e pilhérias sobre a vetusta instituição. Estamos a falar de uma universidade que só aceitou a inscrição de estudantes femininas em 1904 e depois de uma grande polémica, e que até até 1960 não permitia que as mesmas permanecessem depois das 6 da tarde! Parece que ainda hoje as jovens licenciadas, depois da cerimónia final de investidura, não resistem a vir fazer a versão irlandesa do nosso manguito frente ao busto do reitor que se opôs à entrada das mulheres! Os católicos também só foram admitidos em 1970 mas aqui era a Igreja que impedia a sua frequência neste antro de perdição. Enfim, uma visita bem humorada!
 
Na Old Library está depositado o famoso Book of Kells, o tesouro irlandês mais precioso. É um manuscrito medieval com quase 1200 anos (seculo IX) e repleto de extraordinárias iluminuras e ilustrações riquíssimas. Apesar da  importância do objecto, percebe-se mal o que leva uma multidão a formar filas intermináveis para poder espreitar um livro, encerrado numa mesa rectangular de 2 por 3 metros, com vitrina à prova de bala, e do qual só se vislumbram as duas paginas que estão abertas.
Presumo que todos os dias eles virarão as páginas mas não repeti a visita no dia seguinte para verificar. Percebe-se bem, contudo, o extremo cuidado com o manuscrito. Contou o nosso garboso guia (da foto) que da ultima vez que foi permitido o seu manuseamento por um visitante ilustre, a rainha Vitória, pensando fazer uma deferência especial aos estarrecidos irlandeses, achou por bem acrescentar-lhe um autógrafo real, o que levou a que, muitos anos depois. quando a rainha Isabel II repetiu a vista já só lhe permitiram vê-lo com o vidro de permeio. Gato escaldado...! Bem mais interessante foi percorrer a Long Room da Old Library com os espectaculares 64 m de comprimento, dois andares, repleta com os seus 200.000 velhos tomos criteriosamente arrumados não por autor ou temática como seria normal mas... por tamanho dos volumes! Mais uma originalidade irlandesa.
Dublin tem muitos outros edifícios de interesse, como é o caso do Dublin Castle que não é um castelo mas um palácio do seculo XVII à moda de Versalhes, embora construído no local onde existiu o primitivo castelo, e as duas catedrais, a Christ Church (sec. XII), sede da igreja irlandesa, o ramo local do anglicanismo e a a St. Patrick Cathedral, (sec. XII, também), de culto católico. Impressionantes as duas. Não dispusemos de tempo para visitar o National Museum e a National Gallery que apesar de nos terem sido fortemente recomendadas ficaram para outra ocasião, já que tenho sempre alguma resistência em passar horas preciosas encerrado num museu quando se visita uma cidade pela primeira vez e há tanto para descobrir lá fora.

É, claro, o caso da zona do famoso Temple Bar. Trata-se de um quarteirão, encostado ao Liffey, composto por uma meia dúzia de ruas estreitas e empedradas, repleto de bares, restaurantes, casas de espectáculo, lojas, artesãos e mercados. É o centro da vida nocturna e da animação diária, está tomado por milhares de turistas mas não deixa de ter um encanto muito especial. Todos os bares têm musica ao vivo, quase sempre tradicional, mas também se pode ouvir jazz e outras músicas alternativas. Para além da música dentro dos pubs, sempre a abarrotar, podem ouvir-se performances na rua, há esplanadas para sentar, para beber um copo, para comer, há lojas convencionais e outras que são muito originais. É fácil sentirmo-nos bem em Temple Bar até porque, apesar da multidão, é sempre possível, com alguns minutos de paciência, encontrar um lugar à frente dos músicos, enquanto se bebe uma pint de Guinness ou se janta. Nos bares, não se exige consumo mínimo e ninguém repara se só pedimos uma cerveja, se encomendamos uma copiosa refeição ou se estamos só ali a ver o espectáculo.

Não quisemos deixar Dublin sem deixar de visitar a velha prisão de Kilmainham Gaol e não nos arrependemos pois foi uma dos momentos mais impressivos da nossa viagem. Como este ano se comemora o centenário da revolta da Páscoa de 1916, toda a Dublin está cheia cartazes, exposições evocativas e memórias do sangrento levantamento nacionalista. Mas em nenhum lado se apercebe melhor da história trágica do país e do seu povo que ali, na velha cadeia construída no final do século XVIII e encerrada definitivamente em 1924 com a libertação do ultimo prisioneiro, Eamon de Valera, que viria depois a ser Presidente da República. A visita tem que ser marcada com alguns dias de antecedência através da internet mas o sistema funciona muito bem e foi fácil consegui-las. Foi para aqui que foram levados os lideres do Dublin Easter Rising e foi aqui que foram fuzilados poucos dias depois. Numa visita guiada pelas celas, corredores escuros e pátios claustrofóbicos, carregada de silêncios e palavras contidas, o nosso jovem guia martelava com um ritmo lento e cadenciado algumas das terríveis histórias desses prisioneiros e de muitos outros de delito comum que ali padeceram as agruras do cárcere ou da execução. Choca-nos a evocação do do jovem Joseph Plunket que casou na capela da prisão poucas horas do seu fuzilamento ou de James Connolly que demasiado ferido para se conseguir por de pé , foi amarrado a uma cadeira e assim baleado. Ou ainda a história dos garotos com fome que ali estiveram detidos por 20, 30 ou 40 dias por roubarem um pão, uma cenoura, umas poucas batatas. O edifício foi considerado monumento nacional e totalmente recuperado por subscrição pública e trabalho voluntário o que mostra bem a força do nacionalismo irlandês e a forma como a liberdade é ali valorizada. Uma cuidada e muito instrutiva exposição ajuda a compreender o contexto das varias revoltas nacionalistas pre-independência em 1921 e também da dolorosa guerra civil que se seguiu 1922-1924.

(A seguir: Cerveja a paixão nacional dos irlandeses)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Irlanda: 2 - Os Irlandeses



É verdade que as paisagens da recortada costa oeste são de cortar a respiração, que o verde se impõe por todo o lado e esmaga quase tudo o que a vista alcança, que os castelos são lindíssimos e muito bem recuperados, que nos espantamos pela variedade e profusão dos vestígios arqueológicos de várias eras, que as velhas igrejas e abadias em ruínas no meio do campo são uma imagem incrivelmente romântica, tudo verdade, mas o melhor da Irlanda são mesmo os irlandeses!
Nós portugueses sabemos do que se trata quando falamos de um povo simpático e acolhedor. Fazemos também gala disso e essa é uma das nossas tradicionais virtudes. E não digo que os irlandeses sejam mais simpáticos mas expressam essa simpatia numa alegria contagiante, servida por um humor muito próprio, carregado de ironia, sendo tudo isso alicerçado numa forte tradição rítmica que nos põe todos a cantar e a dançar. Só visto!

Eles não se calam
É difícil ficar indiferente aos irlandeses. A primeira coisa que notamos é que eles falam pelos cotovelos, contam histórias atrás de histórias que temos por vezes dificuldade em acompanhar por causa do sotaque cerrado e riem muito, a maior parte das vezes deles próprios. Na nossa primeira saída após Dublin, fizemos aquilo que pensámos ser uma pequena paragem num cerâmica perto de Kilkenny, uma pequena e amorosa cidade onde ficámos duas noites. A oficina estava parada, o dono de férias mas a loja tinha duas senhoras que nos atenderam. Em vez de 10 minutos ficámos por lá cerca de duas horas! Como em todo o lado começaram por nos perguntar de onde somos. Revelada a nossa origem, os sorrisos rasgam-se, a boca solta-se. Sim, eu já estive (ou uma prima, ou uma tia, uma amiga, as variações podem ser muitas) em Portugal, no Algarve, lovelly, nice people, etc. E então o que estão aqui a fazer? Férias? Vieram para o chuva e para o frio? Bem para nós este tempo está óptimo, mas calculo que para vocês não seja agradável, isn't it? Querem saber a história da Pottery? Ao fim das duas horas sentimo-nos na obrigação de comprar um pratinho pintado que nos custou os olhos da cara, não sem antes tirarmos uma foto de conjunto com as sorridentes e simpáticas senhoras.

Isto provou-nos que não é preciso apanhar um irlandês de copo na mão num bar para lhe desvendar a alma. Ela revela-se a todo o instante. Exemplo disso são os motoristas dos autocarros turísticos de Dublin. Como aqui estávamos ainda sem carro, optámos por comprar aqueles passes hop on hop off de dois dias que nos permitem entrar e sair das atracções e retomar a viagem quando desejássemos. Conhecemos por isso uma boa meia dúzia de motoristas, qual deles o mais original. Na maior parte das vezes a voz off gravada do guia turistico é substituída pelas explicações dos condutores na hora. Desengane-se quem pense que se limitam a apontar à vossa esquerda o Trinity College, à vossa direita a famosa estátua da Molly Malone. A um bastou a evocação da Molly Malone para ouvirmos, em várias versões, as suas histórias, algumas delas com o inevitável toque brejeiro e depois a própria canção cantada a plenos pulmões enquanto conduzia pelas apertadas ruas da cidade perante o olhar primeiro atónito mas depois divertido dos turistas. Outro ao passar pelas colunas do icónico edifício GPO (leia-se General Post Office), onde se desenrolaram alguns dos episódios mais sangrentos da ultima grande revolta contra o domínio britânico em 1916, comentava assim: «vejam como cada um faz a sua revolução! Os franceses tomaram a Bastilha, os soviéticos o Palácio de Inverno, nós, os irlandeses, assaltamos a estação dos correios!Baahh!»


Mas se quer conhecer um irlandês no seu habitat, vá vê-los aos pubs. Não aos pubs turísticos de Temple Bar que sendo imperdíveis pelo espectáculo e pelo ambiente, são sobretudo produções para visitante ver. Falo dos pubs das pequenas cidades, cheios de locais, homens e mulheres em partes iguais, que vestem a camisola do clube da terra numa manifestação que julguei erradamente de adeptos de futebol. Futebol?, atirou-me um, olhando por cima da sua pint, quando quis saber qual o clube. Isso é para meninas, sempre no chão com dores e muitos ais. O jogo ali era o hurling, o instrumento com que se joga é uma espécie de stick cujo efeito nem quero imaginar o que fará quando bate na cabeça de um e de que eu desconhecia em absoluto, safando-me desta vez o google para poder continuar a conversa animada. A verdade é que nestes pubs populares é difícil conversar, primeiro porque o barulho é ensurdecedor depois porque o sotaque é muitas vezes cerrado e quase impenetrável. Mas vale bem a pena o esforço porque o divertimento é garantido. E é neste ambiente caótico que às tantas um tipo lá do fundo puxa da viola e se põe a cantar. Aqui ninguém manda calar que se vai cantar mas à primeira estrofe, sem qualquer transição, dezenas de vozes começam a acompanhar a canção de tal forma que o coro parece ter sido previamente afinado. Dá vontade de ali ficar a noite toda.

A simpatia, a disponibilidade para responder a dúvidas, a dar orientações e conselhos de viagem é geral e transversal a géneros e idades por toda a Irlanda. Seja no acolhimento dos Bed and Breakfast (B&B para os entendidos) numa loja, numa bilheteira de uma atracção, em  qualquer lado, esbanja-se cordialidade e empatia que vai para além do simples profissionalismo. Como foi o caso, absolutamente devastador para a nossa auto-estima, quando nos informaram que poderíamos usufruir dos bilhetes de sénior na entrada de um museu por já termos 60 anos feitos! Oh my God! Really? Habituados em Portugal a empurrarem-nos a idade da reforma sempre para a frente, experimentámos um sentimento indizível com a revelação que podemos ser terceira idade na Irlanda! Passado o choque inicial, já não quisemos outra coisa. Daí para a frente, foi sempre sénior para tudo, mesmo quando o limite afixado era superior: desculpe, consideram sénior a partir de que idade?, passou a ser a pergunta obrigatória. É aos 65, responderam algumas vezes mas se tiver 60 também estamos a deixar entrar.  E não é que  ninguém alguma vez me pediu o BI? No final devemos ter poupado uma largas dezenas de euros.
(a continuar)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Irlanda 1 - Um País a Descobrir

Tínhamos há muito curiosidade de ir conhecer a Irlanda e depois de várias tentativas frustradas e de alguns adiamentos por razões conjunturais, conseguimos aproveitar as férias deste ano e passar duas semanas na terra dos celtas.

Partimos com muita curiosidade e sem ideias preconcebidas mas com a esperança de encontrar um país europeu que acolhe bem os visitantes, com paisagens bonitas, um povo alegre e bem disposto, onde se está bem e se pode viajar à vontade por todo o lado e com um nível de vida compatível com o orçamento das nossas férias. Férias descontraídas a dois, sem pressão de tempo nem compromissos de agenda, com o ritmo que a nossa vontade nos impusesse. 

Planificação
Um dos maiores prazeres que retiro de uma viagem de férias onde a intenção é descobrir um país ou uma região, é a planificação prévia da jornada. Munir-me de guias, estudar mapas, consultar a net, perceber o que vale a pena visitar, onde é obrigatório ir e assinalar os locais que não podemos perder. Planeámos por isso a viagem de forma a que tivéssemos tempo de conhecer Dublin em primeiro lugar e depois, em carro alugado, percorrer o país e visitar o que o que nos pareceu mais interessante.
A aventura começou com a marcação das viagens, reservando vôos em companhias low cost, as únicas que fazem voos directos entre Lisboa e Dublin, no caso a Ryaner na viagem de ida e a Aer Lingus na viagem de volta. Devo dizer que apesar de já ter alguma experiência em viagens aéreas foi a primeira vez que utilizamos este tipo de companhias. Não fiquei impressionado, devo confessar. Os bilhetes são aparentemente baratos mas depois tudo aquilo que um viajante habituado a viagens em companhias regulares dá por adquirido tem que pagar à parte. A bagagem, por exemplo. O problema não foi pagar pela bagagem, foi tentar adivinhar com 3 meses de antecedência,quando se compra os bilhetes pela internet, qual vai ser o peso da mala A e da mala B e pagar logo de acordo com isso. Depois os próprios lugares podem e devem ser ser "comprados" como quando escolhemos os lugares da plateia de um teatro, ou corre-se o risco de quando chegar a hora do embarque, cada um ficar em seu lado. Claro que a bordo, o conforto, tal como suspeitava, não abunda: avião todo cheio, pouco espaço na cabine para os volume de mão e para as pernas e onde até um copo de agua se faz pagar. Enfim, percebo o conceito e a utilidade da coisa mas não é definitivamente a minha praia. 
À semelhança dos vôos, o hotel em Dublin também foi marcado via Booking como habitualmente fazemos. Nas grandes cidades privilegiamos sempre a localização já que a experiência nos diz que hotel situado fora do centro representa muitas horas perdidas e gastos extra sem fim em viagens escusadas e sem interesse, São relativamente caros os hotéis em Dublin (pagámos cerca de 180€ por noite) e os quartos em geral pequenos, embora funcionais, sem atingir o patamar mínimo dos de Londres, por exemplo. Mas como tencionávamos passar muito pouco tempo no hotel, esse detalhe não pesou na hora de escolher. Ficámos num hotel na O'Connell Street, no coração da cidade e com transportes fáceis para todo lado e as principais atracções acessíveis a pé. Dublin, uma cidade fervilhante pronta a explorar

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Pão nosso que estais na mesa!


Como quase todos os portugueses gosto muito de pão. Acho mesmo que temos o culto do pão, ou não estivéssemos inseridos na zona de influência da chamada dieta mediterrânica onde este assumiu um papel de relevo na alimentação das populações desde a descoberta da agricultura há 10 mil anos atrás.

Apesar disso, é com alguma tristeza que constato que nem sempre o pão que nos chega à mesa merece elogios. Por um lado, acho que a maioria dos consumidores é hoje pouco exigente e habituou-se a comer qualquer coisa que se assemelhe com pão. É ver aquelas carcaças moles por fora e emborrachadas por dentro ou aqueles pães cujo aspecto exterior e capa estaladiça esconde uma massa mal distribuída, deficientemente trabalhada e cheia de buracos. Digam-me lá como se pode fazer uma sandes ou uma torrada em condições com uma fatia de pão com aquelas crateras? E como se pode dizer que se gosta de pão, quando a primeira coisa que se pede ao comprá-lo é que o fatiem todinho logo ali na loja? Como fica a fatia com algumas horas a secar ao ar?

Mas se a procura é pouco exigente, a oferta, apesar de cada vez mais abundante, deixa também muito a desejar. Eu sei que é moda agora ter padarias, perdão, boutiques de pão, em qualquer esquina. E sei também que, certamente para justificar os preços inflacionados que por aí se veem, se convencionou ser moderno misturar à farinha dos cereais uma panóplia de ingredientes que ao pão dizem pouco e acrescentam quase nada. O crime de lesa pão é contudo a generalização da massa congelada "pronta a cozer" que massifica a oferta numa mediocridade confrangedora com prazo de validade limitada a um par de horas. Brrr!

Tenho a sorte de ter casa na zona saloia, onde para alem do acesso ao melhor peixe da nossa costa tenho possibilidades de comparar pão de qualidade. Por ali ainda abundam os moinhos de vento, alguns ainda a moer de forma tradicional, e mãos sábias e pacientes no trabalho da massa. Mas também não estou livre de enganos. Certamente para corresponder a alguma procura pouco esclarecida, já vejo anunciados aqui e ali essa praga nacional do"pão alentejano" que de alentejano não tem nada tirando a imitação grotesca de daquele formato reconhecido, Aberto o dito, a ausência dos aromas pungentes a fermento, a massa mole e leve em vez de densa e pesada, desmontam logo a aldrabice. O pão alentejano merecia mais respeito e com tanto e tão bom pão saloio por ali, não havia (mesmo) necessidade.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

José Rodrigues dos Santos e a apologia do disparate



Agora temos um apresentador da televisão e autor de best sellers a imitar outros best sellers, a anunciar ao mundo a grande descoberta da filosofia política do seculo XXI: que o fascismo tem origem no marxismo! E perante a incredulidade generalizada, deu-se ao trabalhio de escrever um artigo no Público (vejam lá onde!) a tentar demonstrar isso mesmo. A prova insofismável, diz ele, é que o Mussolini teria sido marxista antes de fundar o fascismo italiano. 

Como diria o nosso Sá de Miranda, «me espanto às vezes, outras me envergonho» com esta cultura de pacotilha colada às três pancadas que assim tem acesso aos media e à (suposta) respeitabilidade. 

Mas o argumento é delicioso. Usando a mesma argúcia imbatível, e vendo o percurso de vida de alguns dos antigos lideres e actuais gurus dos partidos da direita como Durão Barroso e o José Manuel Fernandes do Observador, por exemplo, podemos dizer que o o liberalismo luso teve origem no maoismo? Será o PSD, afinal um filho do marxismo-leninismo? Aguardo os brilhantes desenvolvimentos do José Rodrigues dos Santos.