segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Manchester By the See: a fragilidade da condição humana


Há filmes que vemos e descartamos no dia seguinte. Há filmes que nos divertem, outros que nos informam, alguns emocionam-nos. E depois há aqueles - poucos, muito poucos - que não conseguimos esquecer. Manchester By The See será um deles. Não porque seja um dos melhores filmes do mundo (não é!) mas porque nos toca de uma maneira tão poderosa, tão profundamente e tão intensa e que saímos da sala com um nó na garganta.

Não estamos a falar de um melodrama, de situações mirabolantes que só um argumentista criativo seria capaz de engendrar. Não, e é por isso que este filme é-nos quase insuportavelmente doloroso. Porque as situações retratadas são afinal banais, as personagens são vulgares e anódinas, ali não há heróis nem vilões, apenas gente como nós tocada por uma imensa tragédia sem culpa mas também sem remissão. Há uma contenção que percorre todo o filme e que acentua o impasse. Lembrei-me de uma tragédia Sófocles em que os deuses se divertem em colocar os pobres mortais em situações impossíveis e para as quais parece não haver saída. Mas o facto é que há, apesar de tudo a vida continua e seguimos em frente, carregando às costas um peso que não é igual para todos.

Este é um filme que vale pelos silêncios, pelas palavras não ditas, às vezes sussurradas outras só afogadas na dor. É um filme em que o trabalho dos actores se impõe e que só por si vale a deslocação. Casey Affleck é enorme, Michelle Williams brilhante e o "puto" Lucas Hedges uma revelação. É um filme sobre a natureza da nossa condição humana, sobre as pequenas vitórias e as grande derrotas, sobre as nossas frustrações mas também e sobretudo sobre a enorme capacidade de sobrevivência que é inerente à nossa espécie.
Um filme imperdível!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Il Mercato, by Tanka Sapkota: de Itália com amor



Está desvendado o mistério do novo projecto que o chefe Tanka Sapkota sistematicamente referia aos clientes e amigos que o visitaram nos últimos tempos no seu italiano Come Prima. Chama-se Il Mercato, fica no Páteo da Bagatela, na Artilharia 1, em Lisboa  e abre ainda este mês de Janeiro.

Segundo um comunicado de imprensa agora distribuído, Il Mercato pretende ser mais que um simples restaurante. Como o nome indica, inspira-se no conceito de um mercado italiano que procura oferecer uma diversidade de produtos genuínos e ao mesmo tempo combinações de pratos irresistíveis. As possibilidades passam por os clientes poderem escolher os produtos a peso, consumi-los directamente na loja num balcão dedicado, comprar o vinho e fazer as suas próprias combinações. Tentador para os apreciadores da cozinha italiana promete ser a possibilidade de escolher entre mais de 20 tipos de massas frescas produzidas diariamente em frente do cliente, consumi-las no local ou levá-las a peso para casa com os respectivos molhos.

Com um grande foco no produto, garantindo a sua frescura e autenticidade, o espaço tem a pretensão, segundo o seu promotor, de revolucionar a forma habitual como nos relacionamos com os restaurantes italianos. Sapkota promete trazer de Itália de avião a  mozzarella de búfala do dia directamente da Campania, entre outros produtos exclusivos.

Lisboa está cada vez mais cosmopolita!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Eu, Daniel Blake: um murro no estômago!


O filme do cineasta britânico Ken Loach é um retrato poderoso e profundamente humano de uma certa realidade social que muitas vezes teimamos em não reparar. Falo por mim. Nunca alinhei nas teorias neo liberais hoje em tão em moda de que o mercado é a solução para tudo. Não é! Pelo contrário, acho que o estado social que vingou na Europa após a 2ª guerra mundial, e entre nós apenas a seguir ao 25 de Abril, é a maior criação da humanidade pela forma como conseguiu integrar a generalidade da população num conjunto de direitos básicos  que penso serem inerentes à nossa condição humana.

A verdade é que esta conquista civilizacional dá-nos um conforto ilusório, reforçado pelo facto de sabermos que ela é alimentada pelos nossos impostos, o que origina muitas vezes uma certa desresponsabilização pelos problemas subsistentes. E depois vemos que esse estado providência, generoso nos objectivos, esbarra muitas vezes numa burocracia legalista e implacável que tem sempre mais em conta os regulamentos e procedimentos estabelecidos que as condições e as necessidades específicas do individuo em concreto que é suposto apoiar. É nesta contradição dos termos que se joga a trama do filme levando até ao limite do absurdo uma situação kafkiana em se vê envolvida a personagem principal, Daniel Blake, um marceneiro de 59 anos, viúvo, info-excluído e vitima de um recente ataque cardíaco que o impede de trabalhar mas que não consegue receber a pensão a que teria direito porque não sabe preencher um formulário on line ou não encaixa em nenhuma das situações tipificadas pela segurança social.

Não se pense contudo que o filme é apenas uma luta inglória do individuo contra a máquina burocrática. É também profundamente comovedor ver como nas situações mais penosas, mesmo no fundo do abismo para que somos atirados, afinal são as pessoas que podem fazer a diferença. Na sua demanda inglória por gabinetes, centros de emprego, banco alimentar, onde a par da indiferença institucional se encontram também algumas almas compassivas, Daniel cruza com Katie, uma jovem mãe solteira com duas crianças, desenraizada como ele, e também ela uma vítima que não passa pelas malhas do sistema. Para mim, é a mensagem mais marcante do filme de Loach. Na interajuda entre os dois seres desvalidos nasce uma ligação forte que quebra a barreira do isolamento e que permite entrever uma luz ao fundo do túnel.

Numa película em que seria fácil puxar pelo melodrama ou pelo rodriguinho, a narrativa mantém-se contida, linear, rejeitando os arabescos ou sentimentalismos piegas. Um filme que interroga as nossas certezas e nos confronta com a poder cru da realidade.

A não perder.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Fortaleza do Guincho: Rendido!



Tenho uma relação de já há alguns anos com a Fortaleza do Guincho. Em rigor não posso cair na tentação de dizer que é o melhor restaurante (detesto estes títulos absolutos e definitivos que não querem dizer nada) mas posso assegurar que é daqueles poucos em que sempre me senti bem e onde sempre gosto de voltar. Gosto do edifício, aquele velho forte militar do século XVII, bem convertido num boutique hotel de charme. Gosto da soberba vista sobre o oceano, da forma como as aguas quase nos vêm lamber os pés quando batem com estrondo nas rochas do promontório. Gosto do requinte um pouco demodé daquela sala de jantar, cheia de luz e onde o sol se demora a por antes de mergulhar definitivamente lá longe sobre o mar. Gosto ainda muito do serviço, simpático, sempre atento, com um bom equilíbrio que é sempre complicado de manter entre a afabilidade e o profissionalismo.

E, claro, tenho apreciado as subtis e graduais alterações que tenho notado no estilo da sua cozinha desde os tempos que já lá vão em que o famoso chefe francês Antoine Westerman se tornou consultor e o restaurante entrou na categoria daquilo que se convencionou chamar fine dining. Lembro-me ainda bem do que foi o trajecto do restaurante com o chefe executivo Marc Le Ouedec. Primeiro uma clássica cozinha francesa, depois, lentamente, a descoberta dos produtos portugueses e forma como lentamente os começou a integrar nos menus e a fazê-los brilhar em pratos inspirados. Gostei especialmente do consulado do chefe seguinte, Vicent Farges, sobretudo na última fase em que se libertou definitivamente da tutela de Westerman e assumiu sozinho a responsabilidade da cozinha. A base da sua cozinha e as técnicas continuaram a ser francesas mas ninguém antes dele tinha tirado tanto partido dos mariscos e peixes da nossa costa e elevá-los ao altar da perfeição. Sim, eu era daqueles que achava uma injustiça a falta da segunda estrela Michelin.



A nova Fortaleza com Miguel Rocha Vieira

Por isso, quando há pouco mais de um ano apareceu a notícia da saída de Vicent Farges da Fortaleza, confesso que a primeira sensação foi de um certo desconforto. Não gostamos de abdicar aquilo que temos por adquirido. O nome do novo chefe executivo,  Miguel Rocha Vieira (MRV), despertou-me sentimentos contraditórios. Gostei muito da aposta num cozinheiro português, contrariando a ideia que fez cá vencimento durante muito tempo que os chefes de fine dining com estrelas ou aspirantes a estrelas teriam que ser estrangeiros (obrigado José Avillez por ter desbravado este caminho!). Por outro lado, nada sabia dele, para além ter já conquistado a estrela no restaurante Costes, em Budapeste (a primeira da Hungria!) e de aparecer muitas vezes como júri em concursos de televisão com uma imagem nem sempre bem conseguida.

Quando a simpática e muito profissional Ana Músico, responsável pela comunicação da Fortaleza do Guincho convidou uma pequena poule de jornalistas e gastrónomos a visitar o restaurante e experimentar o novo menu, já da responsabilidade do novo Chefe, as impressões resultaram um pouco inconclusivas. Porque se por um lado já se percebia ali, naquelas propostas, um grande domínio de técnicas, uma atenção no detalhe e uma certa irreverencia refrescante, tornava-se difícil compreender um linha de rumo, uma coerência estruturante da nova carta, com várias propostas que sendo em si interessantes, resultavam para mim algo confusas no conjunto. Percebia-se que se estava ali a construir alguma coisa, percebia-se o desejo de ruptura com o passado recente, que se descortinava também na decoração do espaço, na nova aparelhagem da mesa num certo despojamento estilístico mas não era claro, pelo menos para mim, para onde se pretendia caminhar.

2ª volta conclusiva

Um ano depois. tenho que confessar, tudo agora é mais claro. Quis o acaso que voltasse ao restaurante duas vezes com um ligeiro intervalo, uma num almoço particular e noutra, a novo convite da casa e as coisas começaram a fazer sentido. Há o desejo assumido de honrar uma tradição gastronómica portuguesa, pondo em destaque os produtos nacionais, apelando a uma memória de sabores genuínos e inserindo-os numa encenação vistosa, em geral bem conseguida com um ou outro pormenor excessivo ou de gosto mais duvidoso.

As entradas





Por exemplo, logo nos snacks de entrada evoca-se a prática quase caída em desuso da secagem do peixe ao sol na Nazaré com a espectacular Brandade de carapau sobre a telha de tinta de choco e grão-de-bico. Pena que o vistoso carapau seco sobre a rede seja só para vista, contrariando o velho princípio de que tudo o que vem para o prato é comestível. Noutro snack, é extraordinário de sabor  o micro Pastel de massa tenra de caldeirada de safio que vem acompanhado por um shot de cerveja artesanal. Brilhante a ideia do Habitat de percebes, em que os comensais são convidados a aspergir um pó de algas sobre os sabores delicados dos moluscos, envolvidos por um puré de laranja e uma maionese de ostras contrapondo aos sabores mais vincados dos cogumelos shimeji braseados. Pungente de sabor, o Pimento grelhado, recheado com a essência da cabeça de peixe e do creme de pimentos vermelhos.



Entre as entradas e os pratos, põem-nos na mesa uma bonita pedra polida onde parecem jazer quatro coloridas criaturas marinhas. É um engano e uma maldade! São manteigas, senhores, de sabores intensos e misteriosos, que não resistimos a barrar nos pães crocantes, um tortura viciante a que dificilmente conseguimos resistir.

Do mar

Entrado nos pratos, o Carabineiro do Algarve estava irrepreensível bem conjugado com as várias texturas das cenouras e citrinos, acentuando o toque de frescura a que o caldo das cabeças do marisco, que é vertido depois, empresta uma grande complexidade.





















Outra revisitação leva-nos a Setúbal e à memória do Choco frito, aqui servido sob a forma de três pequenos nacos com maionese de bergomota e menta. Para mim é um dos exemplos da decoração maximalista e excessiva com a carcaça do choco seco, das conchas e da rede de pesca a pesarem visualmente no conjunto. Mas o "momento", como agora se diz, é salvo pelo belo Filete de salmonete a vapor (foto da direita) com os tentáculos do choco e o molho da sua tinta.



Notável é o prato de peixe seguinte: um fino Filete de pargo com cevadinha em forma de risotto e , ladeado de dois molhos de funcho que não se fundem e entre si contrastam.

Da terra






















Na ementa que nos foi servida, a carne foi representada por um prato que MRV chamou "Da Cabeça aos pés". Como o nome deixa adivinhar é uma evocação do tradicional aproveitamento total do porco que vem aqui servido em forma de naco acompanhado por um saboroso xerém de ameijoas e cebolas (lembrando a carne de porco à Alentejana) e ainda uma terrina do mesmo reco feita com as partes moles do dito. Não posso negar que os sabores eram deliciosos mas a combinação e sobretudo o desdobramento em dois pratos, acabam por resultar um pouco confusos.

Dos doces





















A refeição termina com a apresentação de duas sobremesas. A primeira, chamada Dunas do Guincho,  é muito bem conseguida, tanto em termos visuais como de paladar. Os sabores dos frutos secos em várias texturas, evocando o pinhal das redondezas, é muito apelativa e conquistará o agrado geral. A segunda, chamada de Memórias da minha infância, é menos espectacular (tirando o facto do próprio prato vir tingido de um vermelho vivo comestível) mas agradou-me por ser leve e pouco doce. É um tributo à tigelada, acompanhado de um sorbet de marmelo e marmelada, num bom equilíbrio entre a acidez e o açúcar.

Um ano depois de assumir a chefia do restaurante, a cozinha de MRV revela-se com um princípio identificador, assumindo sem complexos um corte com o passado recente. A recriação de pratos baseados na cozinha tradicional ou na sua interpretação mais ou menos livre, ao mesmo tempo que se recuperam ingredientes e sabores, alguns deles já quase perdidos na memória, tem indiscutível mérito e pode funcionar como um impressivo cartão de visita da gastronomia portuguesa a quem nos visita. Sabendo que a maioria dos clientes da Fortaleza são estrangeiros, penso ser a opção acertada.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Era assim o meu Natal


Não faço parte daquele tipo de pessoas que gostam de proclamar alto e bom som o seu desprezo pelo Natal. Para mim, o Natal é ainda uma época especial e se é verdade que à medida que avançamos na idade, as coisas se vão diluindo um pouco e a inocência há muito se foi, continuo a celebrar a festa a a manter vivas tradições que fazem parte da nossa identidade.

O Natal, para mim, remete inevitavelmente para a infância, aquele tempo absoluto que nos marcou e moldou definitivamente. A minha infância foi passada nos anos 60 no Tramagal e é daí que tenho as mais impressivas recordações do Natal. O nosso Natal era sempre vivido só a quatro, com os meus Pais e o meu irmão. Numa família conservadora e profundamente religiosa, o símbolo do Natal era evidentemente o presépio que a árvore de Natal só muito mais tarde entrou em casa por pressão de nós as crianças, certamente já contaminadas por influência exterior. Mas a verdade é que a montagem do presépio nos entusiasmava bastante. Lembro-me de ir para o pinhal com um carrinho de mão para apanhar musgo e algumas pedras para a construção da gruta natalícia. Havia evidente prazer no trabalho de montar esse cenário idílico no qual colocávamos depois as figuras das personagens depois de cuidadosamente desembrulhadas das caixas onde dormiram durante o resto do ano. Não era um presépio rico, apenas com meia dúzia de peças, incluindo a Sagrada Familia, alguns pastores e umas poucas ovelhinhas. Mas era uma representação que preenchia toda a nossa imaginação e com a qual nos entretinhamos a brincar, o que levou uma vez que tivéssemos partido o Menino Jesus para nosso desespero. Minha Mãe ensinava-nos que as nossas boas acções (ou sacrifícios, já não sei bem!) que pudéssemos praticar faziam crescer as palhinhas da manjedoura que aqueciam o Menino  e levávamos o conselho à letra.

Naquele tempo não havia ainda Pai Natal, tido como um símbolo mais ou menos pagão. Os pedidos de presentes eram feitos ao Menino Jesus a quem escrevíamos cartas, assegurando que nos portamos bem e de quem depois esperávamos com ansiedade se os nossos desejos tinham sido satisfeitos. Quando éramos muito pequenos, não tínhamos autorização para ficar acordados até à meia noite pelo que a magia da abertura dos embrulhos só acontecia no dia 25 de manhã. Já um pouco mais crescidos, começámos a ir à Missa do Galo e esse ritual passou a fazer parte da tradição natalícia. Ao contrário do que se possa pensar, devo dizer que gostava de ir à Missa do Galo. Era uma Missa festiva, com muitos cânticos e uma atmosfera especial, fruto da presença de muitas pessoas vindas de fora e que eu nunca via no resto do ano. A Missa terminava sempre com a cerimónia do beijo ao Menino Jesus e encantava-me ver as longas filas de gente à espera de se ajoelharem em frente do padre que exibia a imagem reluzente (e certamente lambuzada!) do Menino.

Indissociável do Natal eram também as tradições à mesa. Minha mãe era uma boa cozinheira e excelente doceira e nessa época fazia questão de nos tornar isso bem evidente. O prato do jantar da véspera era o bacalhau que eu na época não apreciava por aí além mas que compensava depois pela prova dos muitos doces postos na mesa. Nos fritos havia sobretudo dois tipos de coscorões, um com um formato de uma flor que o meu Pai ajudava a fritar, usando uma pequena cana recortada com dentes que ajudavam a massa a rodar no óleo e outros que a minha Mãe chamava chamava de "turcos" e que eram uma faixa de massa muito fina e quebradiça enrolada em várias voltas e envolta em açúcar e canela que eram os meus favoritos. Havia ainda as broas de mel de que já falei, um bolo imperial do qual ainda não consegui reproduzir o ponto certo, pudim de ovos, uns pequenos bolos amarelos em forma de papel chamados "pastilhas de Londres", entre muitos outros.
Uma festa para os olhos, uma alegria para os estômagos que não raro era seguida de desarranjos intestinais inevitáveis!

Era assim o meu Natal.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Ainda a propósito de umas broas


O curto comentário que fiz no FB sobre as broas de mel de minha Mãe despertaram alguma curiosidade e algumas pessoas amigas chegaram-me a pedir a receita. Não tenho problema nenhum em divulgá-la no fim deste texto até porque a comida só tem verdadeiro sabor quando é partilhada.

Como já disse era por altura dos Santos na aldeia (hoje vila) do Tramagal, concelho de Abrantes, que se fazem as ditas broas. Para nós, crianças, esta época dos Santos inaugurava o período das festas pleno de emoções que se prolongava até ao Natal e não tem correspondência com o que hoje se vive com a tradição importada do Halloween. O dia de Santos, 1 de Novembro, começava bem cedo e era uma verdadeira festa. Bandos de crianças batiam todas as ruas do Tramagal pedindo «bolinhos, bolinhos, à porta, pelos seus santinhos». Minha Mãe preparava cuidadosamente os sacos de pano que levávamos nesse peditório. Lembro-me que não era um saco de pano qualquer mas um bonito bornal feito em mosaico patchwork, de rendas e lãs que marcavam a diferença e que nos faziam sentir, a mim e ao meu irmão, orgulhosos e especiais.

As pessoas do Tramagal em geral levavam muito a sério esta tradição dos Santos. Compravam ou preparavam com antecedência iguarias que distribuíam às crianças. Havia chocolates, rebuçados, tremoços, fruta fresca, frutos secos, passas de figo, broas, biscoitos de várias formas e feitios, pães, entre muitas outras guloseimas. Em algumas casas de lavradores mais ricos, era mesmo montada uma banca com os empregados da casa a atender a criançada. Era tanta a fartura que muitas vezes tínhamos que ir a casa despejar o saco antes de continuar a jornada por outra rua. Apesar do clima de festa generalizada, a recepção não era exactamente igualitária. Nas casas de pessoas amigas, mais chegadas, ou que tinham, por uma razão ou outra, mais consideração pela nossa família, o atendimento era especial. «Então vocês são filhos de ....?» «Ah, então esperem aí um pouco, deixem atender primeiro estes meninos» E lá vinha depois um bolo, às vezes mesmo dinheiro, que nos apressávamos a colocar no porquinho mealheiro. Cerca das 11 horas ou ao meio dia havia uma interrupção para a missa e logo depois dela a ronda final do peditório. À hora de almoço, tudo acabava repentinamente. Mas a tarde prometia ser bem passada a separar as ofertas e a comer doces, até a Mãe dizer "já chega que ficam sem apetite para jantar".

Vamos então às broas.  Não tenho a certeza da origem desta receita, que é de resto muito simples, mas penso que a Mãe a herdou da minha Avó que era cozinheira numa casa de família abastada na Praia do Ribatejo. Sei que toda a gente que as provava gostava muito e muitos pediam-lhe a receita mas também me lembro que mesmo essas, quando as provávamos depois, não nos sabiam ao mesmo. Eu próprio demorei a acertar o ponto e os meus filhos eram implacáveis nas críticas durante essas tentativas até finalmente concederem: «agora sim, estão iguais às da Avó».  Quando a Mãe faleceu, tive por ponto de honra continuar esta tradição, porque de facto gostamos muito delas, os miúdos pediam-nas e achei que era uma forma de homenagear e eles terem sempre presente a imagem da Avó. Apesar do trabalho, é das coisas em cozinha que faço com mais prazer.

Broas de Mel e Amêndoas
Ingredientes:
1 chávena de açúcar
1 chávena de água
1 chávena de mel (convém não ser muito escuro)
1 chávena de azeite
2 chávenas mal cheias de farinha de trigo
Amêndoas peladas qb

Colocam-se os ingredientes, à excepção da farinha, pela ordem indicada, num tacho grande e largo e vai ao lume brando, mexendo de vez em quando. Deixa-se levantar fervura e subir a espuma até à borda do tacho, mexendo sempre.
Retira-se do lume e adiciona-se a farinha, mexendo energicamente para a dissolver o mais possível. Coloca-se outra vez ao lume brando, mexendo sempre para dissolver os grumos de farinha que fiquem até a massa engrossar e soltar-se das paredes do tacho. É preciso alguma força!
Deixe arrefecer um pouco e com a massa ainda quente/morna modele com as mãos o formato fusiforme que vê na foto (cuidado poque queimar as mãos!). Coloque no meio uma amendoa e leve ao forno cerca de 25/30m a 200 graus.
Para mim a verdadeira dificuldade foi acertar no tempo de forno. Para elas ficarem com a consistência que gostamos - crocantes por fora e macias mas compactas por dentro - não podem ter menos (ficam moles) ou de mais (ficam duras) tempo de forno.
Se alguém quiser tentar, boa sorte e bom apetite!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Alves de Sousa: saber fazer!


Uma empresa estritamente familiar

Das muitas centenas de apresentações de vinhos que já presenciei, os lançamento de Alves de Sousa são seguramente dos mais profissionais e eficazes que se fazem entre nós.

A empresa é estritamente familiar. Foi já no longínquo princípio dos anos 90, que Domingos Alves de Sousa, filho e neto de viticultores do Douro, que produziam vinho fortificado proveniente das suas quintas para as grandes casas de vinho do Porto, resolve lançar-se na produção e engarrafamento de vinhos do Douro com marca própria. Visão estratégica e determinação não lhe faltaram. E com isso iniciaram um movimento imparável que teve muitos outros seguidores e colocaram os vinhos tranquilos do Douro nas bocas dos consumidores mais exigentes e na admiração da crítica especializada nacional e mundial.

Os vinhos da Quinta da Gaivosa que foram aparecendo, primeiro sob a direcção de técnica de Anselmo Mendes e nos últimos anos já sob a batuta de Tiago Alves de Sousa, filho de Domingos e entretanto formado em enologia, estiveram sempre entre os melhores do Douro, numa consistência notável. Novas marcas de referencia como a Vinha de Lordelo ou Abandonado, entre muitas outras, vieram completar o lote de vinhos impressionantes que qualquer apreciador gostaria de ter na sua garrafeira.

Em 2016, a família Alves de Sousa celebra a inauguração de uma nova adega que já é a menina dos seus olhos e permite lançar-se para outros voos. Ainda não tive oportunidade de a visitar mas as fotos apresentadas e a descrição feita da sua traça e das funcionalidades, deixa perceber que haverá um antes e um depois da nova adega.

Um profissionalismo rigoroso

Sejamos francos. O Douro está hoje na moda e vinhos bons, já muitos produtores, felizmente, os fazem. O que gostaria de realçar agora, inspirado pela apresentação que presenciei ontem à noite no hotel Ritz em Lisboa, é a forma como Domingos e Tiago encenam esta performance anual junto da imprensa especializada e de alguns opinion makers.

Sem recurso a agências de comunicação e utilizando apenas a prata da casa, os Alves de Sousa conseguem a proeza de ter a sala cheia das pessoas que lhes interessam, fazer uma apresentação fluente e prova de novidades durante uma hora e meia, sustentada por abundante e esclarecedora documentação entregue a cada participante e terminar com um jantar de altíssimo nível onde foram degustados  outros vinhos históricos da casa. Nada é deixado ao acaso. É aqui, onde muitos falham, que Alves de Sousa acerta.

Quem vê há muitos anos trabalhar Domingos Alves de Sousa sabe que ele não deixa nada ao acaso. Atento ao pormenor, minucioso quanto chegue, trabalhador incansável, não deixa de reclamar para si os méritos que reivindica mesmo quando os outros não são tão lépidos a reconhecê-lo. Ficou célebre o seu comentário quando recebeu pela primeira vez o prémio Produtor do Ano, em 1999 (recebê-lo-ia outra vez em 2006!): «Acho que já o merecia!». É esta exigência para si próprio e para os seus que obriga que nos seus actos públicos e nas relações com a comunicação social ele não facilita.

Acerta, por exemplo na escolha do local. Há muitos anos que se mantém invariavelmente no Ritz. Não por ostentação, embora este será provavelmente o mais caro sítio de Lisboa para se fazer uma prova. Mas porque o hotel e as condições oferecidas, o serviço, o catering lhe garantem uma qualidade que noutros locais não lhe seria dado como adquirido. Onde é importante, não corta custos. Aqui tem a certeza que os copos são adequados, - 11 por pessoa, na apresentação da semana passada  - que a temperatura dos vinhos é irrepreensível, que o serviço é feito por gente competente, afável e ao ritmo desejado. Os convidados são bem instalados, e trabalham confortavelmente. A sala é ampla e exclusiva, não havendo interferências de outros eventos, a imersão garantida é total.

À frente de cada jornalista, uma mesa de trabalho com um completo dossier informativo, papel e lápis. Quem está habituado a receber muita informação inútil ou desadequada, incompleta ou até por vezes mal escrita, reconhece aqui a valia de uma descrição da empresa, do percurso percorrido, dos prémios ganhos, de informações sobre a nova adega recentemente construída, do report com o balanço do ano de vindimas e com a explicação da estratégia da prova. Cada vinho apresentado tem uma ficha completíssima, de onde consta a história do mesmo, a explicação do seu posicionamento no portefólio da casa, as colheitas anteriores, as medalhas ou distinções obtidas, para além das informações técnicas sobre o vinho: as castas, a idade das vinhas, os detalhes da vinificação, do estágio, as características analíticas, etc. Como são muitos anos a fazer isto, eles advinham já muitas das perguntas que os jornalistas costumam fazer: quantas garrafas produzidas, qual o preço de venda ao público, para que mercados se destinam os vinhos, etc.


Gostei sobretudo de ver o jovem Tiago Alves de Sousa a conduzir a prova. Quem o viu há uns anos, a aparecer timidamente ao lado do então enólogo consultor, dando uma achega aqui e outra acolá, não pode deixar de notar a grande segurança e desenvoltura com que fez a apresentação dos 11 vinhos da noite. Aliando uma sólida competência técnica, obtida pela formação do curso de enologia e por pós-graduações e actualizações académicas posteriores, Tiago mostra o profundo conhecimento sobre cada parcela, de cada casta, de cada cepa. E tudo isso com a paixão de quem fala sobre aquilo que é seu. O tom é coloquial e tirando o abuso do bordão "realmente" repetido muitas dezenas de vezes, é muito agradável de seguir. Mal dei pela hora e meia da prova.

Os vinhos


Os vinhos apresentados foram dois brancos, sete tintos e dois Portos.

Dos vinhos brancos foram apresentados o Branco da Gaivosa Grande Reserva 2014 e o Alves de Sousa Pessoal branco 2008. No jantar posterior tivemos ainda a oportunidade de provar o Branco da Gaivosa 2015. Gostei muito do primeiro: profundo, grande complexidade, fruta branca com um toque mineral. Envolvente e sedoso, apoiado numa boa acidez, é um vinho de guarda que já dá prazer a beber à refeição. O estilo do segundo é propositadamente polémico e representa uma aposta da casa que se vem mantendo coerente. Lançar em 2016 um branco de 2008 revela já essa determinação no procurar fazer diferente. Mas a verdade é esta edição está um bocadinho mais acessível relativamente a a colheitas anteriores mesmo para consumidores que em princípio podem não apreciar o estilo. Já não é tanto o "ama-se ou odeia-se" de que falava o pai Domingos. Do perfil, mantém a austeridade agora um pouco mais polida. Um vinho bom para despertar discussões apaixonadas.

 Os três tintos seguintes foram da Quinta Vale da Raposa, todos da colheita de 2013. Touriga Nacional, Sousão e a recuperação da marca Grande Escolha que em tempos tinha sido descontinuada e que agora em boa hora regressa. Está belissimo o Touriga, muito fresco nas suas notas florais e de fruta preta, sedoso com madeira bem integrada. O Sousão confirma o estilo mais rústico, carregado na cor, encorpado, taninos vivos e um bom final. Boa surpresa o Vale da Raposa Grande Escolha. Fruta de boa qualidade, tudo muito afinado, num conjunto de grande finesse e um bom final.

O Quinta da Gaivosa que foi apresentado foi o 2011 e está tudo dito. Já dá muito prazer em beber agora mas advinha-se um futuro grandioso para quem tiver a paciência de esperar. Gosto sobretudo da qualidade da fruta madura mas com o equilíbrio da frescura, num conjunto que revela grande harmonia e sofisticação. Para além de tudo, é um vinho que costuma funcionar muito bem à mesa, como de resto tivemos oportunidade de verificar no jantar em que foi servido o seu irmão mais velho de 2008, esse também em excelente forma.

O Vinha de Lordelo, também da colheita de 2011, apresentou-se a seguir. Provém de vinhas velhas com  mais de 100 anos, numa parcela da Quinta da Gaivosa que os proprietários desejaram identificar e vinificar separadamente desde 2003. A produção é escassa - apenas um cacho por videira, revelou Tiago - e as mais de 30 castas autóctenes que compõem o lote garantem um vinho cheio de complexidade e de grande profundidade. Apesar de se assumir como de gama superior (vide o preço recomendado de 64€!), para o meu gosto pessoal, prefiro mais o estilo da Quinta da Gaivosa.

O penúltimo tinto apresentado é o Abandonado, uma marca mais recente que as anteriores mas que já conquistou um lugar de destaque entre os vinhos portugueses mais cotados (80€ cada garrafa!) A colheita apresentada é a de 2013, um ano complexo e não inteiramente consensual. Aqui predominam as notas balsâmicas, um toque mineral e uma estrutura muito sólida, completada por um longo final. é um vinho impressionante, muito apelativo em prova, onde na minha opinião funcionará melhor que acompanhando comida.

Para acabar a série de tintos, veio o Alves de Sousa Reserva Pessoal 2007. Este vinho, como o nome indica, tem uma filosofia muito própria. Lançado apenas em anos considerados de grande qualidade, tem um estágio longo de pelo menos 7 anos em garrafa depois de ter passado 14 meses em barricas novas. Este 2007 está já numa fase primorosa, ainda com boa cor e com uma fruta de grande qualidade, tudo bem envolvido num conjunto de equilíbrio perfeito entre elegância, corpo e frescura. Um vinho de grande prazer.

A apresentação finalizou com a prova de dois vinhos do Porto, Fazer Portos para a família Alves de Sousa é sempre voltar à base, aos fundamentos do seu negócio que começou há 5 gerações atrás. Foi por isso natural, que tendo consolidado a imagem da casa com os vinhos do Douro, quisessem também estender a sua assinatura aos vinhos do Porto que sempre fizeram. Apresentaram o Vintage 2013 e o Tawny 20 Anos. Gostei do Vintage, um perfil mais fresco e muito apelativo que se bebe já com grande prazer. Bem conseguido, também o 20 Anos, com um aroma intenso a frutos secos e uma boca onde se nota frescura e elegância.


O Jantar

Como disse atrás, não é por acaso que o Hotel Ritz é a escolha recorrente das apresentações Alves de Sousa. Se dúvidas houvesse, o menu do jantar assinado pelo chefe executivo Pascal Meynard confirmou mais uma vez a justeza da escolha. Cada um dos pratos foi concebido para fazer brilhar os vinhos que os acompanhavam. Isso foi particularmente evidente no caso do Alves de Sousa Pessoal Branco 2008, servido como o Foie Gras (que bela combinação!), na foto da esquerda, no bacalhau com o Gaivosa 2008 ou nessa apoteose final que foi a bela sobremesa de chocolate e frutos vermelhos que acompanhou o Vintage 2009.